Doc-LEK é um núcleo cultural do:

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sábado, 26 de setembro de 2015

Coronel Ernesto de Oliveira

Gosto de sonhar e vou buscar no passado, ali por volta de 1936, o vulto nobre e esforçado de um ubatubense de verdade, Coronel Ernesto de Oliveira, inteligente e convincente no modo de tratar seus semelhantes, pois era Coletor Estadual na cidade, nas horas vagas advogava e quase sempre ganhava as causas de seus constituintes. Pai extremoso, trabalhava à luz de lampião, até altas horas da noite, para poder manter seus filhos estudando fora de Ubatuba. 

A primeira entrevista que tive com o senhor Ernesto de Oliveira foi motivo de funda surpresa para mim. É que eu, recém chegada de Santos, fora residir na Praia da Enseada e fizera essa acidentada viagem por mar na lancha “Ubatuba”, que apontava semanalmente na tranquila praia dos passados anos. 

Uma pequena venda dava o pão de todos os dias. Meu marido, turrão como ele só, resolveu não pagar os impostos de nossa pequena casa de negócios. Dizia-me que iria só negociar por quatro meses e não valia a pena pagar por tão pouco tempo. 

E eu, para quem as palavras dele eram lei, achei muito natural continuarem as coisas como estavam. O caso é que uma bela manhã me encontrava na praia, esperando Albino que estava em Caraguatatuba, quando veio ao meu encontro um cidadão descalço, de chapéu de palha, simpático, que, com extrema gentileza, fez-me ver que meu marido deveria pagar os impostos atrasados na Coletoria Estadual, da qual o Sr. Ernesto de Oliveira era coletor. E assim foi que no dia seguinte travei conhecimento com o Coronel, fidalgo no tratar, dono de fluente e castiça linguagem portuguesa, que me cativou logo. E desde esse dia em que, por ordem de Albino, paguei nossa dívida atrasada com o Estado, contraí também a maior de todas as dívidas, a de gratidão e constante amizade para com o Coronel Ernesto. 

Quando mudei da Praia da Enseada para a cidade, tornei-me vizinha da família do coletor. Ele e eu já éramos amigos de verdade. Muito mais tarde aprendi a admirar seus filhos, os quais, um a um, foram se formando e se tornando com o correr dos anos a família mais unida que já conheci, muito me orgulhando de ser por eles considerada. Deposito com estas humildes frases a minha saudade sobre o túmulo do ser que, quando vivo, concedeu a mim, uma desconhecida, a sua consideração de cavalheiro e a sua amizade de irmão. 

Bom dia Ubatuba 
Páginas 91/92.

TERRA TAMOIA - Wladimir de Toledo Piza

Terra Tamoia é Ubatuba. 

Wladimir T. Piza
É Iperoig. É o lugar onde um dia Manoel da Nóbrega e José de Anchieta chegaram, navegando e canoas feitas de troncos de árvores, partindo da Bertioga para tentar o recurso supremo na obtenção da paz entre portugueses e índios tamoios. Estes eram aliados dos franceses de Villegagnon. E, enquanto contassem com o apoio dessa tribo numerosa e aguerrida, estariam os calvinistas tranquilos no Rio de janeiro, enquanto os católicos portugueses, se São Paulo de Piratininga, ficariam sempre aguardando sua expulsão do território recém-ocupado no planalto paulista. 

Ainda que pudessem resistir e manter o sul do Brasil e a região situada na Bahia para cana, os católicos não poderiam impedir a divisão das terras de Santa Cruz em três países: extremo note e extremo sul, falando a língua portuguesa e rezando pelo catecismo de Roma. O centro, francês e calvinista. 

Era indispensável expulsar os franceses e, para isso, ganhar a confiança dos índios tamoios, seus aliados. José Adorno providenciou a viagem. E os padres partiram ao encontro dos selvagens ferozes.

Em Iperoig, depois de longas tentativas, foi resolvido um encontro dentre enviados dos padres e portugueses de Piratininga. Nóbrega viajava com eles, mas, para penhor da vida dos embaixadores, fica Anchieta na terra tamoia, como refém. E é ali, sozinho, assediado diariamente por todas as tentações, mas com a alma cheia de fé e elevada pela paisagem maravilhosa, que compõe o seu poema à Virgem. Concluída a Paz de Iperoig, como ficou conhecido o episódio, vem a expulsão dos franceses, e, com ela a consolidação da unidade nacional. 

O Brasil salvo e gigante, viria o surgimento de um núcleo cheio de vitalidade em Ubatuba. E, quando o café chega ao Vale do Paraíba, eis Ubatuba a cidade mais rica de São Paulo. Por três anos sua renda é maior que a da capital. Estrangeiros foram morar ali, porque Ubatuba era porto de mar que comercializava com o resto do mundo. Surgiriam brasileiros descendentes de ingleses, franceses, suíços e de outras origens, na antiga taba tamoia. Sobradões senhorias ficaram para testemunhar o período de realeza, mas a fartura terminou com a construção da estrada de ferro Santos-Jundiaí e com a falência da empresa ferroviária, que os ubatubenses começaram, para tentar manter seu porto movimentado. 

Então, por quase um século, a terrinha estiolou na pobreza e no esquecimento. Quem tinha coragem para lutar, emigrou. Lá ficaram os velhos, os doentes, os muito pobres, vivendo uma vidinha rudimentar, muito próxima daquela dos antigos donos da região, os tamoios de Cunhambebe e Pindobuçu. Até que um dia, com a reconstrução da velha estrada que servira aos tropeiros no passado, chegou o primeiro automóvel, e com ele o turismo, e com este o progresso de novo, embasbacados os visitantes com a maravilha do casamento entre a serra, coberta de mata e o mar recortado em dezenas de praias lindíssimas. 

Ao lançar o livro “TERRA TAMOIA”, de Idalina Graça, a Livraria Martins Editora presta dois serviços, aos quais estão obrigadas todas as grandes empresas livreiras: a de dar oportunidade a novos escritores e aquele de mostrar aos intelectuais e dirigentes do país, em cada época, como pensa o povo brasileiro, publicando as suas opiniões reunidas em livros. 

Idalina Graça é uma pessoa do povo apenas. Dois anos em uma escolinha de praia constituem todo o seu aprendizado. O resto, foi a vida que a ensinou. O seu depoimento serve como amostragem da opinião da gente da nossa terra, indiferente ao que acontece nessa época trepidante da vida nacional e mundial. 

Figuras das mais interessantes, ela é um ponto de referência de Ubatuba, ou melhor, o mais marcante ponto de referência de Iperoig. Sua vida identificou-se com a bela terra dos tamoios, com a qual ela se julga vinculada por eterna gratidão, não apenas pela acolhida que ali teve, como pelo nome que lhe deu o finado marido, filho de Ubatuba. 

Nasceu em Ilha Bela. Viveu, como cozinheira, em Santos. Lá encontrou Albino Graça, com quem casou-se, indo ser mulher de vendeiro na Praia da Enseada, em Ubatuba, onde, para ajudar as despesas, começou fazendo pastéis, depois fornecendo refeições no balcão da venda.

Seu tempero a tornou famosa. E um dia o dono de um hotelzinho de Ubatuba, precisando urgentemente deixar sua atividade, vendeu-lhe a crédito o estabelecimento. Preço: 1250 cruzeiros velhos. Condições: 50 cruzeiros velhos por mês. Só ela sabe o sacrifício que fez para arranjar essa importância na velha e esquecida Ubatuba de então. 

No hotel, conheceu gente da terra e gente de fora. Na cozinha, no tanque de lavar roupa, na vassoura o dia inteiro, ela achava jeito de rabiscar papéis, anotando o que via e o que ouvia, escrevendo com simplicidade, mas através de uma alma de sensibilidade extraordinária. Colecionou lendas locais e pintou os tipos humanos que conheceu, com traços tão precisos, que eles ainda estão vivos nas páginas deste livro. 

Ainda hoje ela está em Ubatuba. Num fundo de quintal, fica a sua casa, a qual se chega por um estreito corredor ajardinado, entre a cassa da frente, que foi sua, e a vizinha. A casa da frente, com ais duas outras, que o trabalho penoso no hotel lhe permitiu adquirir, ela as vendeu, para poder distribuir roupas, remédios, comida e amparo aos ainda mais pobres do que ela. E que os pobres precisam ser, pois de seu, ela tem apenas essa magríssima pensão, de meio salário mínimo do IAPC! 

Entretanto, Idalina Graça vive em permanente ebulição. Sempre agitada, sempre correndo, sempre trabalhando, sempre cozinhando, atendendo alguns hóspedes amigos, para ganhar tostões, que, reunidos, formam os milhares de cruzeiros que cobrem as necessidades dos seus pobres de Ubatuba, que são muitos, e tão necessitados. 

E ainda encontra tempo e coração para distribuir com todos nós, que não faltamos em sua casa. Sempre que estamos na boa terrinha. Ali, na sua acolhedora casa de fundo de quintal, enquanto passa um café, aquecendo a água em uma lata vazia de banha, ela recita os últimos versos que compôs, ou conta a estória do caiçara que precisa ser socorrido. Nas trovas simples ou na prosa desataviada, transborda então um coração imenso. E nós saímos de lá convencidos de que Deus, que se nega sempre aos soberbos, fala e fala eloquentemente, pela palavra dos simples e dos humildes. 

Ubatuba, 28 de janeiro de 1967. 
Wladimir de Toledo Piza.
(Texto de Wladimir de Toledo Piza publicado na edição original de Terra Tamoia)

WILSON ABIRACHED

FEVEREIRO DE 1969 
A nossa Ubatuba hoje é governada pelo digníssimo Prefeito Dr. José Alberto dos Santos. Muito amigo de Wilson Abirached, ajudou-o quando disputava a candidatura contra Washington de Oliveira. Wilson ganhou e, orientado por Dr. Alberto, político experimentado, muito aprendeu realizando uma feliz gestão por essa época. Hoje Wilson não existe mais. Porém o seu nome permanece vivo no coração daqueles que com ele conviveram e tiveram a feliz oportunidade de serem considerados amigos. E neste dia em que todos se lembram com saudade de Wilson Abirached, em meus apontamentos encontro a crônica: 

MENSAGEM DE FÉ 
Wilson Abirached
Ubatuba, como toda cidade litorânea, desperta para uma nova vida material, assim como também espiritual. Nota-se uma certa tendência nos adolescentes de hoje para as letras, setor musical e cultural. Os jovens já não se interessam só por bailes, jogos e esportes de outra natureza. Há mesmo um certo ar de maturidade nos semblantes juvenis que encontro nas minhas andanças pelas ruas da cidade. 

Assim é Ubatuba nos dias atuais. O céu sempre azul nos convida a meditar nessa melhora sensível dos homens de hoje. A administração caminha em paz. O nosso digníssimo Prefeito governa a cidade com vontade de vencer e vencerá coma Graça de Deus. Conheci Wilson criança ainda, 18 anos de idade, contava ele. Naquele tempo eu era proprietária do Ubatuba Hotel, hoje Cine Iperoig. Ali se hospedava o turbulento rapaz. Alegre, sempre pronto a pregar partidas aos companheiros de sua idade, era difícil conviver com ele ser aderir às suas brincadeiras. Uma madrugada, lembro-me bem, o jovem viera de Taubaté em “Teco-teco” de sua propriedade, hospedando-se como de costume em meu hotel. À noite caiu um temporal imprevisto como são todos eles na faixa litorânea. Apesar das minhas brigas, acompanhando Wilson até o campo de aviação, rogando para que não se arriscasse a voar, Wilson Abirached, com o mesmo sorriso de sempre nos lábios, arrancou do campo em plena tempestade voando para onde seu coração de moço o chamava. 

E assim era ele até o fim dos dias, - pois não foi fácil para sua alma generosa governar Ubatuba quando os correligionários políticos exigiam que não reatasse relações de amizade rompidas no campo da política. Wilson lutou com denodo, impondo-se com energia e coragem tão próprias do seu caráter não corrompido pelas vicissitudes da vida. E fiel às amizades do passado, estendeu a mão a todos, inclusive a mim, pois melhor do que ninguém, ela sabia que minha humilde pessoa no setor político e no setor da amizade, repito, estaria sempre até meu último dia de vida sobre a terra, ao lado de Washington de Oliveira, digno filho de Ubatuba, reconhecidamente provada sua eficiência como líder político, homem de letras e farmacêutico profissional. 

Pois bem, ao lado de Washington tive que lutar contra o nosso Prefeito. Perdemos a batalha, mas em compensação recuperei o amigo de sempre, filho espiritual que Wilson Abirached foi para mim. E nunca me negou sua ajuda quando estava dentro das possibilidades. Ubatuba, qual rainha litorânea, caminhou guiada pelo mais generoso coração que possa caber dentro de um peito de homem, de acordo com os princípios de amor, harmonia, verdade e justiça. 

Quando escrevi esta crônica, Wilson era moço e forte. Jamais pensaríamos em perdê-lo em estúpido acidente. Fazia anos que a tinha escrito e publicado na “Tribuna” de Ubatuba. Hoje transcreve para as páginas deste livro, gravando assim em letras de ouro o nome de um homem que muito trabalhou por nossa terra. Pois em ouro eu quisera gravar de verdade todo bem que os passados prefeitos em suas curtas passagens pela Terra de Cunhambebe deixaram espalhados em todos os lares. 
BOM DIA UBATUBA Editora Vida Páginas 73/74.

sábado, 19 de setembro de 2015

Luiz Ernesto Kawall

Hoje foi um dia feliz para mim, pois recebi a visita do Senhor Luiz Ernesto Kawall, jornalista credenciado junto ao Governo do Estado, muito simpático, extremamente inteligente. Dispôs-se a dar informações necessárias sobre o passado Governo Sodré, pois é meu desejo perpetuar o ilustre nome do simpático ex-governador de São Paulo nas humildes páginas do livro em preparação. Do fundo da minha alma peço aos ubatubenses serem reconhecidos ao ex-Governador Sodré, ajudando alma e coração no dia em que ele vier porventura a precisar de Ubatuba. 

Durante a feliz gestão Matarazzo-Toledo Piza na minha cidade, tive ocasião de ser apresentada ao Dr. Roberto Costa de Abreu Sodré, em visita oficial a Ubatuba, aqui vindo para inaugurar o retrato de seu falecido e inesquecível pai, em uma das salas do Museu Histórico e Pedagógico de Iperoig. Vendo-o de perto, com um sorriso simpático nos lábios, uma simplicidade nata em cada gesto, tive o prazer de analisar o cidadão que se revelava em si o homem nascido para governar não só um Estado, mas querendo Deus, uma Nação. 

Que destino amigo das grandes inteligências disseminadas por nossa Pátria faça desse cidadão esclarecido o Presidente do nosso Brasil é um desejo. 

Na época em que conheci o Governador Sodré, também conheci Luiz Ernesto Kawall; tornamo-nos grandes amigos e foi ele, então Assessor de Imprensa, que pronunciaria frases de admiração pelo governo Sodré, em uma conversa amiga sobre a sua personalidade. 

Ele foi admirável como Governador do nosso Estado e, sobretudo é humaníssimo, enquanto seu olhar abrange a política em todos os setores do grande São Paulo. Mente esclarecida move-se em todas as direções, solucionando diversos problemas, simultaneamente. A tudo, porém, e a todos atende, levando uma esperança, na sua voz calorosa e amiga, a cada coração”. 

Assim falou durante uma agradável palestra, Luiz Ernesto Kawall, nessa manhã de domingo, enquanto o sol amigo doirava as verdoengas encostas de Ubatuba. 

Bom Dia Ubatuba - Editora Vida, (página 115).

ESSA DOCE HUMANIDADE

A primeira informação que tive de Ubatuba veio através de meu irmão Valter, que passou férias aqui. Nesta época eu trabalhava como jornalista na Tribuna da Imprensa e fora escolhido por Carlos Lacerda para chefiar a sucursal de São Paulo, em 1951. Passava por um período de estafa e estava me recuperando de uma operação de sinusite. Era o momento para tirar umas férias e recuperar-me em Ubatuba. Foi uma longa e cansativa viagem de ônibus: São Paulo-Taubaté-Ubatuba. A chegada dos ônibus vindos de Taubaté era uma alegria para o povo. Muita gente vinha assistir sua chegada, inclusive comerciantes e autoridades. Era uma Ubatuba lúdica, lírica e mágica. Mas a chegada, àquela noite, foi ao sabor de uma chuva torrencial. Orientado por Félix José Francisco, a primeira pessoa que conheci em Ubatuba, hospedei-me na Colônia de Férias dos Funcionários de Taubaté, na Rua Thomaz Galhardo. Na manhã seguinte, numa bicicleta alugada a 200 réis à hora, saí para conhecer as praias. A Ubatuba daquela época causou-me intensa fascinação, suas poucas ruas, sua arquitetura colonial já decadente, o antigo cinema com seus lugares marcados para as autoridades locais. Era uma Ubatuba idílica, histórica, poética. Nos anos de 53 e 54 voltei e desta vez trazendo a família de minha futura mulher, hospedando-me no Hotel Felipe. 

O BAIRRO DO ITAGUÁ 
Nós saíamos todos os dias a pé para as praias. E assim fomos conhecendo, aos poucos, o Perequê-Açú, o Itaguá, o Tenório, a Praia Grande... Aquela que mais gostamos foi o Tenório, por ser mais intimista, protetora, de águas limpíssimas e transparentes, de areia alva e fina, toda sombreada por abricoeiros. A partir daí começamos a conhecer alguns caiçaras: o Quincas, construtor e presidente da Associação dos Vicentinos; o Velho Barroso, pescador e agricultor, um homem cordial, afetuoso e alegre; Janguinho, caseiro de Wladimir Piza e sua mulher, Santana, pessoa boníssima, linda, de grande alegria, bondade e forte personalidade. Grande parteira, segundo os registros de suas anotações pessoais, fez mais de três mil partos. 

O PAPA E A CAPELA DO ITAGUÁ

Godofredo dos Santos
O Godofredo dos Santos, que era um caiçara forte, rude, espigado, agricultor e construtor nato, grande leitor de livros e com dom natural pratico; O seu Chiquinho da Praia Vermelha, agricultor de verduras e dos abacaxis mais doces que conheci; o Albino Alexandrino dos Santos, pescador e construtor de barcos, Albino era o sacristão responsável pela Capela de Nossa Senhora das Dores da Praia do Itaguá. Certa ocasião chegou à capela um padre vindo de São Paulo, para rezar a missa. Vestia-se á paisana, isto é, de calças. Albino pontificou questionando-o sobre o seu estado. O jovem padre disse ser permissão do Papa as vestes paisanas, ao que Albino retrucou: o Papa manda lá no Vaticano; aqui na Capela do Itaguá mando eu. Depois de algum tempo o padre vendo-se vencido retornou à matriz. E neste domingo não houve missa na Capela do Itaguá. 


 E foi com essa gente bonita e alegre, os grandes troncos familiares do Itaguá, que se realizou uma integração espontânea de parte a parte. O prazer de ouvir, conversar, conhecer... Nessa época, já com muitas amizades, éramos convidados para as festas tradicionais do bairro. Em 1951, quando de minha primeira viagem, conheci o então prefeito Wilson Abirached. Conversamos longamente sobre os problemas e as dificuldades enfrentadas pelo município, as dificuldades de locomoção... Para as autoridades locais o município era um grande potencial turístico, dificultado pelas precárias vias de acesso. Para atrair turistas, a Prefeitura oferecia terrenos àqueles que demonstrassem interesse em construir. O então prefeito ofereceu-me na época um terreno na Barra da Lagoa, que não aceitei. Pouco depois, comprei um terreno na Praia Grande. Instruído por amigos, que consideravam a praia imprópria para banho, acabei por vendê-lo em seguida. Nessas idas e vindas para Ubatuba, o Barroso, em 1954, ofereceu-me uma típica casa caiçara de três cômodos, de propriedade de João Firmino, seu ajudante de pescarias, por 5 contos de réis. À época não pude despender tal importância e dispensei a compra. Em 1955, um ano depois, Barroso ofereceu-me a mesma casa pelo mesmo preço, facilitado em 5 prestações iguais de mil réis cada. Era uma proposta irrecusável. Nos anos seguintes fui comprando os terrenos vizinhos, até fazer um sítio com três mil metros quadrados que, em homenagem à casa pioneira, denominamos Sítio Sapé. 

O SÍTIO SAPÉ 

Aos poucos fomos reformando a casa e construindo outras, sempre fazendo uso de material reciclado de construções antigas de Ubatuba. Por fim, o Museu foi construído também dessa forma. A tipicidade de sua arquitetura chamou a atenção do bairro e da gente da cidade pela utilização de elementos naturais coletados na região. Pedra e madeira, portas e vidas de canela, janelas de pinho-de-riga da Fazenda Jundiaquara, telhas coloniais da Fazenda Velha. As construções foram erguidas por mestres caiçaras, hábeis artesãos e construtores, como mestre Otávio dos Santos.

DAS PRIMEIRAS FESTAS À ESCOLA DE SAMBA 

Essas construções no estilo colonial caiçara deram ao Sítio Sapé uma aura de alegria, paz, confraternização. Eram conhecidas as festas com a presença constante de violeiros, especialmente os da folia do Divino, liderados por mestre Otaviano. Nessas reuniões festivas se distinguia por suas danças, seus causos e até por suas bebedeiras o Velho Augusto (Augusto Correa Leite), que se tornou a figura símbolo do Sapé e do bairro do Itaguá. A pedido do próprio Augusto, nos idos dos anos 60, por achar o bairro à noite muito triste e sem graça, entregamos a ele 33 instrumentos musicais comprados em São Paulo, na Casa Sotero. E ele formou a Banda do Vovô, que passou a alegrar as festas e a as noites do Tenório e do Itaguá. 

Essa Banda, por volta de 1965/66 foi dissolvida e os instrumentos remanescentes, uns 15, inclusive o bumbo, doamos para o Esporte Clube Itaguá. Lá eles ficaram empilhados durante anos. Já nos idos de 70, passaram a integrar a banda da famosa Escola de Samba do Itaguá, campeã por sete anos seguidos do carnaval ubatubense. É por isso que ao lado do saudoso Antônio Pinto e dos irmãos Maneco, Edinho e Hilário, todos fundadores da escola de samba, fiz parte da primeira diretoria, sendo por dois anos, na gestão de Fiovo Frediani, seu vice-presidente. 

O CIRCO ARRANCA-TOCO 

O Circo Arranca-Toco surgiu da necessidade de se dar diversão para as crianças. Porque o Itaguá, apesar de ser um bairro grande, de muitas famílias onde as coisas aconteciam ecumenicamente, nada existia para a diversão infantil. 

No verão de 1959 construímos atrás do Sítio Sapé, com velhas tábuas, um cercado circular com uma arquibancada e junto a uma velha figueira uma casinha e artista. Este circo, batizado de Arranca-Toco, era exclusivamente composto por crianças (os artistas) para a diversão de crianças e adultos. O jornal Última Hora, numa reportagem, chamou esse cirquinho que dava espetáculos todo domingo à tarde, de primeiro circo infantil do Brasil. Meus filhos, sobrinhos e crianças do bairro faziam coisa’ “do arco da velha” no circo: mágicas, lutas romanas, equilíbrio em cordas, travessuras em trapézio, pegas infantis, etc., atraindo sempre um público de 200 pessoas por sessão entre adultos e crianças. Pena que o circo tenha acabado com o crescimento das crianças. 

O MUSEU DO BAIRRO DO TENÓRIO 

Este museu foi criado por mim e por Praxedes Mário de Oliveira, funcionário aposentado do Porto de Ubatuba, homem de grande coração e conhecedor profundo dos hábitos e da vida caiçara. Com essas e mais outras peças que eu estava conseguindo junto à comunidade do Itaguá e adjacências, fui formando um acervo que começa a invadir a minha casa do Sapé, para desespero de meus familiares. Chegou um ponto que o Praxedes e eu decidimos fazer um “museuzinho”, fora de casa, numa peça de 2 por 2, parecendo um galinheiro. O curioso era que as peças eram todas penduradas nas madeiras do teto. Esse Museu foi inaugurado em 1982, merecendo reportagem no Estadão e na revista “Seleções”, que circula em 43 línguas diferentes. Essa revista, editada nos Estados Unidos considerou o Museu do Bairro do Tenório o menor museu do mundo. 

O Museu era uma espécie de espaço cultural comunitário e um pouco da historia do homem caiçara dos bairros do Itaguá e adjacências. Mas como tinha muitas peças rústicas e algumas pesadas, inclusive penduradas no teto, num dia de muita chuva e trovoadas – típico de Ubatuba – o Museu veio abaixo e quase que aquela “museologia” nos pega pela cabeça. Mas Praxedes e eu fugimos a tempo. 

Passado algum tempo, resolvemos construí-lo novamente, em alvenaria e telhas, sob a batuta de mestre Otávio dos Santos, numa área de 4 por 6 metros, dentro do Sítio Sapé. Nessa construção aproveitamos as portas de canela da antiga Casa Vigneron, do Itaguá, as bandeiras envidraçadas e em forma de caixilho das sobras da demolição do Hotel Felipe, as telhas coloniais da Fazenda Velha cedidas por Domingos Chieus Filho, que também doou os primeiros tijolos, de cerca de dois palmos, fabricados em Ubatuba, marca J.B. E até uma porta artesanal do castelinho de Wladimir Piza, do Sítio Santa Etelvina nos foi doada pelo seu antigo proprietário.

Além disso, o Museu ganhou do casal Santana e Janguinho uma grande mesa, molduras antigas do mestre artesão Jacob. Inúmeras fotografias foram cedidas pelo professor Joaquim Lauro Monte Claro. Livros e ilustrações históricas foram doados por Washington de Oliveira. Peças artesanais e utilitárias dos antigos moradores do bairro que também foram cedidas com fotos e documentos familiares dos moradores do bairro do Itaguá e adjacências. 

Entre eles destacamos a especial atenção de pessoas como Velho Augusto, Velho Barroso, Quincas, Janguinho, Albino, família Parú e João Rita. Este último cedeu o primeiro banco escolar que serviu a antiga escola fundada por Virgínia Lefevre. Outros moradores entregaram ao Museu antigas peças utilitárias ainda próprias para uso como matador de formigas, “carneiro” de água, moedor de milho, moedor de café, canoplas, enxós, goivas, canastras antigas, máquina de cinema, batedor de bife, ralador de mandioca e muitas outras coisas interessantes e que foram usadas em épocas passadas por moradores do bairro. Tudo isso veio a se constituir num precioso acervo, talvez importante não só para a história do bairro, mas principalmente para tentar recuperar suas melhores lembranças e reintegra-las ao convívio de todos. 

O MUSEU E A COMUNIDADE 
Foi a partir desse rico material que o Museu passou a interagir com a comunidade promovendo estudos familiares, resgate de fotografias dos antigos moradores, concursos de desenhos, sendo aberto para visitação das escolas como Altimira Silva Abirached, Era Uma Vez, Aurelina Ferreira e Dominique, que constantemente visitavam o Museu e participavam de suas atividades, inclusive durante os festivais de viola. 

Entre as exposições promovidas destacamos a pintura primitivista de João Teixeira Leite, o entalhe intimista do artesanato de Jacob, as escultura e madeira de Bigode e as fotografias de Adilsom Mayer, exímio retratista da alma do povo caiçara, sendo famosa sua série “Vidas do Itaguá”. 

Eu, pessoalmente, empenhei-me nesses anos todos em pesquisar, tal como um turista aprendiz como diria Mario de Andrade, em conhecer alguns aspectos das principais figuras históricas do bairro, como Pedro Tenório, principal comerciante e proprietário das terras da praia do Tenório e Albino Alexandrino dos Santos, o construtor da Capela do Itaguá. 

E por último, no aspecto mais amplo, a incrível história da presença em Ubatuba, por uma noite, acidentado por um avião que desceu inusitadamente na Praia do Cruzeiro, de nada menos que o célebre poeta, escritor e aviador francês Saint-Exupéry. Consegui fotos e testemunhos escritos e orais dessa façanha memorial para afinal provar que contrariamente ao que a Folha de São Paulo noticiara e a lenda corrente na intelectualidade de Ubatuba, quem pousara no Cruzeiro não foi Saint-Exupéry, mas, sim seu colega da Cie. Generale Aero Postale, Leon Antoine. Localizei Leon Antoine morando em Miguel Pereira, Rio de Janeiro e trouxe-o para Ubatuba, onde ele contou sua fantástica descida entre nós. Leon que faleceu recentemente tinha ainda em seu poder, fotos de sua venturosa excursão a Ubatuba, qual um Robinson Crosué aéreo, e ofereceu, gentilmente, ao Museu do Bairro. 

Finalmente eu destaco a contribuição que os festivais de viola promovidos pelo Sítio Sapé e Museu do Bairro do Tenório deram para a cultura popular musical caiçara de Ubatuba e do Litoral Norte. Os festivais começaram com simples reuniões de violeiros no próprio circo Arranca-Toco, em 1959 e depois de dois em dois ou três em três anos, prosseguiam no próprio Sítio Sapé, num total de 12 festivais, contando com a presença de 20 a 40 violeiros, sob o comando dos apresentadores Ari Mattos e Sidney Martins Leme, além de contar com a colaboração da Associação dos Vicentinos do Itaguá, do Ubatuba Palace Hotel, da Rádio Costa Azul, do Clube Primavera além de empresas e firmas comerciais, artistas, familiares e amigos. 

Os violeiros cantavam individualmente ou em duplas em palanques cedidos e gentilmente armados pela Prefeitura, sob as vistas de júri de premiação. Entre os jurados destaco a presença de Washington de Oliveira, Lia de Barros, Maria Carlota Marchetto, José Nélio de Carvalho, Pedro Paulo Teixeira Pinto, Paulinho Nogueira, Kilza Setti, Paulo e Wanda Florençano, Zé Ketti, Carlito Maia, Benedito Góis Filho e muitos outros. 

No festival exibiram-se notáveis violeiros como João Alegre, Grupo Paranga, de São Luiz do Paraitinga, a dupla Beira-Mar e Marília, o violeiro Carunchinho e inúmeros outros violeiros que tiveram no palanque do Festival de Viola suas primeiras aparições públicas. 

Nos três últimos festivais vivemos verdadeira festa de confraternização da sociedade, pois além dos violeiros e dos almoços beneficentes preparados pelo operoso Clube Primavera, exibiram-se jovens roqueiros, apresentaram-se grupos folclóricos como o Boizinho, a Dança da Fita do Mestre Raposa, quadrilhas populares e outras atrações. 

Os antigos moradores do bairro, gente simples e humilde, verdadeiros arquétipos da cultura caiçara, portadores da memória, essa doce humanidade de Cristo, foi homenageada... ganhando prendas, bolos de aniversário, brindes e, mais que tudo isso, o aplauso humano da comunidade dos bairros do Itaguá e adjacências. É isso aí gente, o que espero que o Projeto Tamar, agora assumindo a direção do Museu Caiçara não perca, pois o resgate da cultura caiçara não pode se perder sob pena de ser perdida a própria história, grande, bela e verdadeira, de Ubatuba.

JORNAL “A CIDADE” Edição de 18 de dezembro de 1993. (entrevista-reportagem com Luiz Ernesto Kawall) Texto de Arnaldo Chieus 

VIDA NOVA PARA OS CAIÇARAS

Virgínia Lefèvre

UMA BRASILEIRA ALTRUÍSTA DESPERTA SEUS PATRÍCIOS 

Escola da Almada
Foi um choque para mim descobrir, há dez anos, o abandono em que se achava o litoral norte de São Paulo. Acompanhando meu marido, que é diretor do Instituto Geográfico e Geológico, eu entrara na mata, onde faziam levantamentos para fixação de divisas entre os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A montanha chegava quase à beira da praia, que se espichava sem fim. Nesse cenário belo e grandioso, a população vivia em regime de fome, morando em casebres de pau barrado, cobertos de sapé, com uma esteira à guisa de cama, um banco tosco, um fogão de três pedras sobre as quais se equilibrava a única panela (muitas vezes de lata). Era essa gente que havíamos apelidado de caiçaras. A verdade, porém, é que Ubatuba, o principal centro da zona, cuja população de hoje orça pelos 1.500, já fora mais importante que Santos. Seu nome, no idioma tupi, significa local onde há abundância de caniços próprios para flechas. Fundada em 1600, dentro em breve tornou-se centro exportador e importador não só para a zona do Vale do Paraíba como para o interior de Minas. Os produtos de exportação desciam a serra em lombo de burro e as pedras de cantaria, seda, sal, louças e outras importações subiam do mesmo modo. Ubatuba tinha sua própria frota de barcos que faziam cabotagem até o Rio da Prata ou Pernambuco, levando os produtos dos engenhos de açúcar, das serrarias e das olarias que ali abundavam. O ouro de Minas Gerais seguia de caravela para Lisboa. Diversos foram os flibusteiros ou traficantes franceses ou ingleses que ali resolveram estabelecer-se ou, naufragados na costa, acabavam ficando. Muitos dos atuais caiçaras ainda exibem nomes e traços fisionômicos que denotam esse legado racial, de mistura com sua herança índia, negra e portuguesa.

Canoas de pesca - ao fundo o Sobrdão do Porto
Em 1788 o governador da Capitania Geral ordenou que todos os barcos de cabotagem fizessem escala obrigatória em Santos, que sofria por falta de gêneros, vendendo o que pudessem antes de seguir para diante. Ora, a tributação ali era alta e os compradores não pagavam tanto quanto os do Rio de Janeiro e outros portos. Protestaram os ubatubenses em veementes abaixo-assinados, mas em vão. Desanimados, muitos dos agricultores abandonavam suas culturas, outros deitavam fogo aos canaviais e mudavam-se. Enquanto isso, a vila de Santos prosperava e a abertura de caminhos por terra ligando a Capital a outras cidades de planalto foi desviando mais ainda o pouco de comércio que ainda sobrava a Ubatuba. Os habitantes levaram anos protestando, mas a situação não mudou e a decadência continuou até a chegada da Família Imperial, em 1808, com a consequente liberação do comércio. No século XIX, com a introdução do café no Vale do Paraíba, Ubatuba tornou a prosperar e, por volta de 1865, escoava-se por ali cerca de metade do café exportado pela província. Lá para fins do século, alguns dos cafeicultores se juntaram a potentados ubatubenses para construir uma estrada de ferro ligando o vale ao porto. Mas o café já passara do auge, e a empresa faliu. Encontra-se ainda hoje os vestígios da obra de terraplanagem e até o edifício da estação. 

Praianos puxando rede ao amanhecer
Praticamente sem comunicação com o interior, Ubatuba entrou de novo em declínio. Dessa vez o povo aceitou a sorte com mórbida resignação. O clima era bom e o alimento farto, no mar e no mato. Os mais enérgicos plantavam mandioca, cana de açúcar e café. Faziam farinha de mandioca pelo mesmo método primitivo dos índios; da cana extraiam garapa para fazer o café; e do mar tiravam o peixe.

Mas veio a saúva e alastrou-se de tal maneira que já não era mais fácil conseguir alimento da terra. E vieram as traineiras “cercar” o peixe dentro das enseadas, deixando o caiçara sem ter o que pescar. Procedimento ilegal é claro, mas os donos sem escrúpulos, comodamente instalados nas cidades limitavam-se a pagar as multas quando apanhados em flagrante. 

Casa caiçara
Os caiçaras passaram anos vegetando, quase esquecidos, tentando extrair alimento do solo e do mar, trabalhando às vezes em obras de construção e outros biscates. O pouco que percebiam mal dava para comprar velas, fósforo, querosene. As crianças, subnutridas e expostas a doenças, só vingavam por milagre. Nasciam robustas e espertas e vicejavam em quanto a mãe os amamentasse. Em lugares mais remotos ainda se crê que é bom para o umbigo do recém-nascido passar-lhe picumã das chaminés, o que, naturalmente, causa muita infecção fatal. Ao começar a alimentação de mingaus de farinha de mandioca e bananas, porém, iam perdendo saúde. 

Entre as poucas distrações do caiçara contavam-se as danças herdadas dos negros, sem música, num ritmo de pandeiro e tambor, e as festas religiosas, idênticas ao que era há um século. Sua imaginação se nutria das superstições herdadas dos brancos, índios e negros. Acreditava no lobisomem, em monstros marinhos e na mãe d’água. Em longos anos de ignorância, acumulara “receitas” como estas contra doença: para picada de cobra, beber uma xícara de querosene com três dentes de alho socados. 

Em Camburi a escola iniciou-se na capelinha
De uns anos para cá, o litoral paulista começou a ser “descoberto” pelos turistas. Muitos deles, orientados por gente poderosa e inescrupulosa, puseram-se a ludibriar o caiçara, “comprando” suas terras. O turista chega, constrói casa de luxo que abre durante poucas semanas por ano, mas nada planta nas terras compradas. Os gêneros desaparecem e os preços sobem. 

Início da escolinha no Sertão de Ubatumirim
Foi assim que encontrei Ubatuba há dez anos. Apesar de desconfiado e acanhado a princípio, o caiçara me pareceu inteligente, bom e muitíssimo aproveitável. Tive uma ideia. Em São Paulo, com um grupo de amigas eu vinha há alguns anos tentando ajudar crianças superdotadas que, por falta de meios, não poderiam continuar os estudos por precisarem ajudar as famílias. Percorremos duas ou três escolas públicas e escolhemos cinco meninas das que tiravam as melhores notas e pertenciam a famílias mais pobres. Angariando alguns poucos recursos entre parentes e amigos, não nos contentamos em encaminhá-las para o ginásio ou curso comercial; tomamos conta da família toda, dando-lhe tratamento médico e dentário, enfim, elevando-lhes o nível econômico. Queríamos provar que a boa vontade e o idealismo eram coisas mais valiosas e produtivas que as grandes verbas. E foi assim que formamos a Sociedade Pro-Educação e Saúde. Por que não levar o seu auxílio ao litoral de Ubatuba, abrindo uma escola ali? Compreendíamos muito bem a enorme carga que o governo estadual carregava para manter os serviços sociais oficializados. Poderíamos, porém, dar a nossa migalha e, se conseguíssemos elevar o nível de vida de uma dúzia de famílias, estas iriam multiplicando os dons recebidos e um dia a seara seria grande. 

Escola na Caçandoca
Mas, na capital, ninguém queria ajudar o caiçara “preguiçoso, malandro, indiferente”. Perdemos até um de nossos sócios contribuintes dos mais generosos. Mas não desanimamos, pois queríamos demonstrar que o caiçara só precisava de um impulso. 

Infelizmente minhas companheiras na Sociedade, quase todas mães de família como eu, não podem ausentar-se da capital, ajudando-me só a levantar dinheiro. Assim, tive de empreender o trabalho em Ubatuba como pude. Meu marido, temendo que eu me esgotasse, a princípio não via com bons olhos a ideia. Hoje, entretanto, é meu principal colaborador, orientando-me nas questões técnicas e abrindo-me caminho nas Secretarias de Estado, onde tenho sempre assunto a tratar. 

Os próprios caiçaras também resistiram no começo, embora alguns, mais ousados, se entusiasmassem com o plano da escola e pedissem até remédios e médico. Em primeiro lugar, pareceu-me que era necessário combater o amarelão; mas quando sugeri a abertura de fossas, a indignação foi geral. “A fossa é imoral”, disseram. Preferiam o mato, “onde ninguém vê a gente”. Mas, com muita paciência e alguns caixotes, construíram-se, afinal, as fossas. 

René Vigneron, octogenário
As necessidades daquela gente não tinham fim. A maioria das crianças teria de caminhar mais de um quilômetro para chegar à escolinha; quase todas estavam subnutridas ou atacadas de amarelão. Saíam de cassa com um gole de café e um pedaço de peixe salgado, quando tinha disso. Assim, além do prédio da escola, um quarto para a professora, equipamento didático, livros, papel, lápis, tinta, etc., o remédio seria dar-lhes uma sopa ou lanche forte, com legumes, cereais, extrato de carne, fortificantes. Outra despesa necessária era o fornecimento de uniformes. 

O mais difícil, porem, foi a matrícula. O governo exige, para isso, que a criança apresente certidão de nascimento. Mas a maioria não era registrada. E muitos dos pais nem sequer conheciam a prática do casamento civil, contentando-se com bênção nupcial coletiva de um abnegado sacerdote lhes ia levar pelo menos uma vez por ano. Não me agradava ver na certidão das crianças a pecha de “filho natural” (na época a lei exigia a diferenciação) e por isso comecei a fazer os casamentos civis. 

Foi uma epopeia! Tinha de dormir na esteira, sobre o chão de terra batida, de farolete em punho, esperando a visita indesejável de alguma cobra ou ratazana curiosa ou aranha peluda. O desconforto, aliás, não era sacrifício para mim, pois eu adoro o mato e o mar e não me importo de dormir em chão duro. Quanto à segunda parte, o cansaço em geral vencia o medo e era um sono só... 

Durante o dia, ia anotando os dados. Ninguém sabia a data do nascimento. Muitos ignoravam o nome dos pais. Outros tinham dois sobrenomes. Todos eram analfabetos. Depois de árdua e vã pesquisa, resolvi ir escolhendo uma data bonita para o aniversário deles: 3 de maio, 8 de dezembro, 25 de janeiro... Quanto ao ano, após longas conferências com os mais velhos, escolhia um que parecesse mais perto da realidade. Tudo isso ia numa folha de papel almaço e no canto direito inferior o homem ou a mulher colocava a impressão digital do polegar direito. 

Com a certidão de nascimento e casamento o caiçara passava a existir juridicamente. Ninguém poderia tomar a terra que era sua. E meti-me a promover requerimentos de posse pela lei da usucapião. 

Crianças tomando a merenda escolar
A escolinha, afinal, começou a funcionar em 1946, na praia do Itaguá, a quatro quilômetros de Ubatuba, num terreno doado pelo Sr. Bráulio Santos. E os alunos sempre encheram a modesta sala de aula, não raro ultrapassando o número legal de quarenta. Como tinham parentes em Caçandoca, estes vieram pedir uma escola também. Esta foi inaugurada em 1949. No ano seguinte a Prefeitura de Ubatuba autorizava a instalação de outra no Camburi, de uma quarta na praia da Almada, em 1951, e mais uma em 1954 no Sertão de Ubatumirim, longínquo e isolado. Todas foram construídas e são mantidas pela S.P.E.S., sendo que a municipalidade de Ubatuba paga os ordenados das professoras nas três últimas e o Estado, nas duas primeiras. Em 1953 a Sociedade passou a receber subvenções do Estado, por ter sido declarada de utilidade pública. O programa das escolas é uniforme, idêntico, aliás, ao de qualquer Grupo Escolar, e elas recebem visita anual do Inspetor Estadual. Em 1955 tínhamos duas dezenas e poucas crianças em todas elas (por falta de auxiliares, minhas estatísticas são muito falhas). 

Mas nossas escolas não se limitam só às crianças e à sala de aula. Cuidam também dos adultos, alfabetizando-os à noite, ensinando as mulheres a costurar a máquina e preparar alimentos mais sadios; distribuem aos pescadores fios para as redes e peças para os barquinhos que eles próprios constroem; aos lavradores dão formicida contra a saúva, ensinando-os a diversificar suas culturas e fazendo distribuição de sementes e remédios. Esse auxílio abrange umas seiscentas pessoas, atualmente.

Há pouco tempo, a Sociedade realizou um concerto beneficente e, com a renda, comprou um motor para um dos barcos, a fim de que os homens do Sertão de Ubatumirim possam levar víveres para vender ao caiçara de Itaguá mais barato do que os armazéns de Ubatuba. 

Padre João Beil em visita aos caiçaras isolados
Nosso bom aparelhamento didático faz com que as substitutas diplomadas deem preferência a trabalhar conosco. Em Itaguá temos professoras formadas, donas das cadeiras; na Almada e no Camburi, duas substitutas diplomadas; e na Caçandoca e no Sertão de Ubatumirim, professoras leigas, isto é, sem diploma, que fizeram estágio no Auxílio ao Litoral de Anchieta, em Santos. Três outras moças de Ubatuba, que atualmente moram comigo em São Paulo, também estão estudando para voltar ao litoral e ensinar seus conterrâneos. 

Reconheço que chegamos agora ao limite de nossas possibilidades de ação, A S.P.E.S. já provou que a dedicação muito pode, mesmo com parcos recursos, e que o caiçara, com um pouco mais de saúde, melhor alimentação e rudimentos de instrução, é outro homem. Entrei em contato com uns frades missionários aos quais pretendo passar meu trabalho de direção, continuando como simples colaboradora. Sob a égide da Igreja Católica, eles poderão realizar um trabalho em escala muito maior. 

Texto publicado na revista AMÉRICAS – Volume VIII, Número 3, Março de 1956. (revista mensal publicada pela União Pan-Americana em português, inglês e espanhol). 

sábado, 12 de setembro de 2015

CARTA DO SR. JEAN-GÉRARD FLEURY


                                                                      Prefácio do livro “Saint-Exupéry e o Pequeno Príncipe”, de autoria da Irmã Rosa Maria

Minha querida Irmã, 

E assim você descobriu no Brasil, no Rio de Janeiro, alguém que foi durante catorze anos um amigo próximo de Antoine de Saint-Exupéry. Imediatamente você veio me ver, esperando provavelmente, encontrar em mim não sei que reflexo sobrenatural desse companheiro iluminado. E depois, quase timidamente, você me pediu que lesse os originais de um trabalho que você lhe tinha consagrado. Eu li esses originais e me apresso em dizer-lhe:

– Tranquilize-se, minha Irmã, e publique sem temor o seu livro.

Você não conheceu Saint-Exupéry – Saint-Ex., como nós o chamávamos – senão vários anos depois de sua morte. Você não assistiu suas apresentações de passes mágicos com baralho, você não o ouviu cantarolar velhas canções das províncias francesas – você não o viu no seu posto de pilotagem, a face suavemente iluminada pela lâmpada vermelha do painel do avião, procurar a estrela que, acima da bruma, o guiaria até o farol do Forte Juby...


Mas você leu, avidamente, sua obra. Você foi levada, por seu sopro místico, para bem longe dessa literatura desiludida que reduz o homem a algumas funções físicas. Você compreendeu que Saint-Exupéry trazia a uma juventude deprimida pela perspectiva de uma vida medíocre, o entusiasmo da alma que embeleza as tarefas mais modestas. Ela exalta sua profissão, a de aviador, que era então uma profissão cheia de perigos. Mas você leu também as páginas em que ele admira o jardineiro que cultiva suas flores com amor.

Para Saint-Exupéry o homem só cumpre sua missão neste mundo quando escapa à tentação do egoísmo, quando dá mais do que recebe, quando se abre á fé e ao amor e consente nos sacrifícios que tornam sua vida fértil.

Tudo isso você sentiu. Você o exprimiu muito melhor do que eu poderia fazê-lo nestas rápidas linhas e eu tenho certeza de que nada teria deixado Saint-Exupéry mais comovido, do que saber que uma Irmã brasileira dedicou-se à difusão dos seus pensamentos mais caros.

Queira receber, minha querida Irmã, meus respeitosos sentimentos.

Jean-Gérard Fleury
Rio, 27 de setembro de 1973

SAINT-EXUPÉRY E O PEQUENO PRÍNCIPE


APRESENTANDO (*)

Você vai ler, prefaciando este livro, a carta que me escreveu um amigo de Saint-Exupéry. 

Quando o procurei no Rio, em setembro último, foi com emoção que o ouvi falar do Amigo-Piloto, com a ternura e a fidelidade dos grandes companheiros da “Aéropostale”. 

O Senhor Jean-Gérard Fleury é simples, modesto e tem uma memória excepcional. Lembra-se, com detalhes, dos momentos vividos na companhia de Saint-Exupéry e de seus companheiros de pilotagem com a maravilhosa memória do coração. 

Entreguei-lhe as cópias dos originais deste livro e fiz-lhe um pedido: Eu desejava saber se tinha sido fiel a Saint-Exupéry. 

Ao devolver-me as cópias, três dias mais tarde, Jean-Gérard medisse: “Fique tranquila. Geralmente temos tendência a elevar à santidade ou ao heroísmo aqueles que admiramos, quando morrem. Não se preocupe. Tudo o que você disser de positivo sobre Saint-Exupéry ficará sempre aquém da realidade”. 

Dias depois mandou-me a carta que serve de prefácio a este livro. 

Agradeço a Jean Gérard a delicadeza de seu gesto. 

Há poucos dias, pelo telefone, eu lhe dizia tudo o que a Aviação Brasileira deve ao pioneirismo dos rapazes da “Aéropostale”, especialmente a Paul Vachet, Mermoz, Etienne, Reine, Guillaumet e Saint-Exupéry. Plantando pistas de pouso e postos de abastecimento e conservação ao longo de nossas praias, de Natal ao Rio Grande do Sul, com aviões frágeis, desenvolvendo apenas 160 quilômetros por hora, foram eles que semearam asas no Brasil. Jean-Gérard lembrou-me, então, que o Aeroporto dos Afonsos, no Rio, nasceu do idealismo desses pilotos, técnicos e mecânicos, impulsionando nossos homens entusiasmados com o aparecimento dos primeiros aviões deste lado do Atlântico. 

O Brigadeiro Eduardo Gomes, figura das mais representativas da Aeronáutica de nosso país, inspirou-se na “Aéropostale” quando fundou o nosso extraordinário Correio Aéreo Nacional. 

E continuei: Creio que o exemplo de dedicação e heroísmo que nossos pilotos receberam dos pilotos da “Aéropostale” foi a mais bela colaboração que o Brasil recebeu da França. Em nome de todos eles eu lhe agradeço. 

Jean-Gérard me ouviu com atenção e, com aquela elegância moral que lhe é própria, respondeu-me: “Mas minha Irmã, tudo começou com Santos Dumont. Foi o Brasil que primeiramente deu asas à França. O que fizemos foi apenas retribuir...” 

O Correio Aéreo – a Linha – como diziam os Franceses, partia de Tolosa, fazia escalas na Espanha, no Norte da África e tinha seu ponto final em Dakar. Para servir a América do Sul a “Linha” passou a trazer as malas de correspondência de Dakar a Natal por via marítima. Em Natal passavam as malas do correio para o avião que lá estava à espera. 

Fazendo inúmeras escalas, além das descidas por pane, como aconteceu em Santos, Ubatuba e Praia Grande, chegavam a Buenos Aires. Saint-Exupéry foi encarregado de estender a “Linha” até Punta-Arenas. De Buenos Aires foram a Santiago, transpondo os Andes. Santiago era o ponto final da “Linha”, na América do Sul. 

O primeiro voo noturno foi efetuado por Mermoz, em Abril de 1928, ligando Rio a Buenos Aires. Esse mesmo piloto – Mermoz – fez a travessia do Atlântico, em 21 horas e 15 minutos, chegando a Natal no dia 12 de maio de 1930, pilotando um pequeno hidroavião. Foram seus companheiros o navegador Dabry e o rádio Gimié. 

Em 1970 esteve no Brasil o grande pioneiro da Aéropostale: Didier Daurat. Nada foi noticiado sobre a presença deste francês apaixonado pela aviação e ele aqui passou sem que fosse notado. No começo deste ano morreu Didier Daurat, o chefe da Linha Letécoère, que engajou Saint-Exupéry na Linha Tolosa-Dakar, em Outubro de 1926. 

Também faleceu, recentemente, a mãe de Saint-Exupéry – Marie de Fonscolombe, Condessa Jean de Saint-Exupéry. 

Este livro tem o objeto de divulgar aquele que escreveu: “Nós nos unimos no sorriso, acima das línguas, das castas e dos partidos”. Destina-se a meus irmãos, todos, sem exceção de raça, de idade e de religião. 

Os jovens, com certeza, encontrarão em Saint-Exupéry o amigo fiel, o irmão mais velho, o companheiro de jornada. Conhecerão aquele que nos diz: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...” E ainda: “Eu te desejo fiel. Porque a fidelidade consiste em ser fiel, antes de tudo, a si mesmo”. 

Irmã Rosa Maria São Paulo, 
7 de outubro de 1973. 

(*) - Nota de apresentação à 2ª edição do livro “Saint-Exupéry e o Pequeno Príncipe” de autoria da Irmã Rosa Maria (Dominicana)